a varanda de onde contemplo o céu
assim, quase de igual para igual
o céu tão quieto de silêncio
sobre as casas da infância
a infância pedra a pedra rente
às paredes desbotadas no tempo
das interrogações ditas intemporais
as ruas habitam o silêncio ou o ruído
8 de Julho de 2009
30 de Junho de 2009
passeamos os corpos sob o entardecer.
luz difusa em meio das nuvens paradas
consente o olhar na ilusão: céu lápis-lazúli
como se o mar se tivesse espraiado alto
com suas marés de brancura espumosa.
como se vogássemos nas dobras do vento.
um calafrio segreda da vida num respiro.
luz difusa em meio das nuvens paradas
consente o olhar na ilusão: céu lápis-lazúli
como se o mar se tivesse espraiado alto
com suas marés de brancura espumosa.
como se vogássemos nas dobras do vento.
um calafrio segreda da vida num respiro.
23 de Junho de 2009
são muito lentos os passos
em meio das urtigas agrestes.
no céu um pássaro traça um voo picado.
uma penitência em tão inóspito lugar
soa a dor mais forte do que a razão pode julgar.
em meio das urtigas agrestes.
no céu um pássaro traça um voo picado.
uma penitência em tão inóspito lugar
soa a dor mais forte do que a razão pode julgar.
16 de Junho de 2009
amanhecer raro este de
assombro de pássaros nos beirais
nos ramos desta primavera tardia
com seu trinado de improviso.
contam histórias de flores à beira da estrada
semeadas pela força de um vento árido
de pinhais imensos dourados
em dias de sol condescendente
e depois as searas tresloucadas
por meio das aldeias brancas
de casinhas térreas e os meninos
girando piões até às nuvens
do mel escorrendo as encostas
por terra arenosa e as dunas
a anunciar o espantoso mar
as reverberações das vagas frias
de borboletas esfusiantes asas lapidadas
e coração inocente de ventos e temporais
do esplendor de uma fulguração quotidiana.
assombro de pássaros nos beirais
nos ramos desta primavera tardia
com seu trinado de improviso.
contam histórias de flores à beira da estrada
semeadas pela força de um vento árido
de pinhais imensos dourados
em dias de sol condescendente
e depois as searas tresloucadas
por meio das aldeias brancas
de casinhas térreas e os meninos
girando piões até às nuvens
do mel escorrendo as encostas
por terra arenosa e as dunas
a anunciar o espantoso mar
as reverberações das vagas frias
de borboletas esfusiantes asas lapidadas
e coração inocente de ventos e temporais
do esplendor de uma fulguração quotidiana.
9 de Junho de 2009
a terra como paisagem fragmentada
por entre os rios em ruínas
as searas descompostas.
acreditar no mistério da liquidez
das águas
do respiro viçoso dos caules
acreditar na prece perfeita das sementes
dos homens.
por entre os rios em ruínas
as searas descompostas.
acreditar no mistério da liquidez
das águas
do respiro viçoso dos caules
acreditar na prece perfeita das sementes
dos homens.
3 de Junho de 2009
LEITURAS # 28
PAISAGEM CITADINA
A pele por fulgurantes
instantes muitas vezes abre-se até onde
seria impensável que exercesse
com tão grande rigor o seu domínio.
Não temos então dela senão rápidas
visões, onde os reclames
do coração se cruzam, solitários
e agrestes, reflectidos
por trás nos ossos empedrados.
Em certas posições vêem-se as cordas
do nosso espírito esticadas num terraço.
A roupa dói-nos porque, embora
nos cubra a pele, é dentro
do espírito que estão os tecidos amarrados.
Luís Miguel Nava, Poesia Completa 1979-1994
A pele por fulgurantes
instantes muitas vezes abre-se até onde
seria impensável que exercesse
com tão grande rigor o seu domínio.
Não temos então dela senão rápidas
visões, onde os reclames
do coração se cruzam, solitários
e agrestes, reflectidos
por trás nos ossos empedrados.
Em certas posições vêem-se as cordas
do nosso espírito esticadas num terraço.
A roupa dói-nos porque, embora
nos cubra a pele, é dentro
do espírito que estão os tecidos amarrados.
Luís Miguel Nava, Poesia Completa 1979-1994
28 de Maio de 2009
sob as arcadas finas da noite
despida de violinos e violoncelos
cerro lentamente os olhos
e deito-me na breve aragem fria
que navega do norte.
um leito de silêncio onde
as memórias se reconstruam.
despida de violinos e violoncelos
cerro lentamente os olhos
e deito-me na breve aragem fria
que navega do norte.
um leito de silêncio onde
as memórias se reconstruam.
20 de Maio de 2009
essas pedras imperturbáveis
nos passos que caminhamos.
rígidas, nas horas cruas da estrada.
como fragas sob a força áspera do mar.
arestas em queda funda aos abismos
de mármore. as palavras, em casas de
de pedra por habitar.
nos passos que caminhamos.
rígidas, nas horas cruas da estrada.
como fragas sob a força áspera do mar.
arestas em queda funda aos abismos
de mármore. as palavras, em casas de
de pedra por habitar.
8 de Maio de 2009
os homens não adormecem de sonhos inteiros.
dão milhentas voltas no seu sono. como
caleidoscópios de um mundo de eternas
searas ondulando na aragem quente
e múltiplos regatos de água fresca
sob um céu azul limpo de nuvens.
mas despertam antes que o sonho chova
e os prados alaguem. o seu mundo.
dão milhentas voltas no seu sono. como
caleidoscópios de um mundo de eternas
searas ondulando na aragem quente
e múltiplos regatos de água fresca
sob um céu azul limpo de nuvens.
mas despertam antes que o sonho chova
e os prados alaguem. o seu mundo.
29 de Abril de 2009
refaço o caminho da rebentação das águas.
nebulosa translúcida preenche os espaços
vazios do tempo. emergem fragmentos,
agarram os dedos até aos ossos. soçobram
outros de teimosia no tumulto das ondas.
suspeitava eu que da memória pouco sabia.
nebulosa translúcida preenche os espaços
vazios do tempo. emergem fragmentos,
agarram os dedos até aos ossos. soçobram
outros de teimosia no tumulto das ondas.
suspeitava eu que da memória pouco sabia.
21 de Abril de 2009
escutaste a voz cortante do vento
aos volteios na curva do teu rosto:
.................................orfandade
dos homens confinados ao nada.
rasgaste o céu despido de astronauta
numa noite como rio de nebulosas
de incertezas humanas
sobre a desordem pouco natural
das coisas.
se pudesses rasgarias o universo
inteiro.
aos volteios na curva do teu rosto:
.................................orfandade
dos homens confinados ao nada.
rasgaste o céu despido de astronauta
numa noite como rio de nebulosas
de incertezas humanas
sobre a desordem pouco natural
das coisas.
se pudesses rasgarias o universo
inteiro.
14 de Abril de 2009
anoitece. o céu é de sangue.
sob o grafismo luzente
do sol nas águas, assim também o mar.
num silêncio pesado
toma para si as dores de todos os que nele
viveram ou morreram em mágoa.
a noite é de luto.
meu olhar distante evoca a nau
em que embarcarei meu coração.
longe pressinto a respiração do meu destino.
sob o grafismo luzente
do sol nas águas, assim também o mar.
num silêncio pesado
toma para si as dores de todos os que nele
viveram ou morreram em mágoa.
a noite é de luto.
meu olhar distante evoca a nau
em que embarcarei meu coração.
longe pressinto a respiração do meu destino.
6 de Abril de 2009
são sombras líquidas os sonhos,
águas uterinas que discorrem
do pensamento do coração incauto
do segredo oblíquo na passagem
eterna das memórias
no espelho antigo dos medos
no fundo profundo dos desejos.
são líquidos os sonhos,
correntes que vogam em breves
ruínas de tempo.
águas uterinas que discorrem
do pensamento do coração incauto
do segredo oblíquo na passagem
eterna das memórias
no espelho antigo dos medos
no fundo profundo dos desejos.
são líquidos os sonhos,
correntes que vogam em breves
ruínas de tempo.
29 de Março de 2009
a melancolia penetra o coração
se numa manhã demasiado calma
se uma canção demasiado triste
se uma música demasiado bela
não há antídoto para o excesso
se o coração ele mesmo
tem tão frágeis suas asas
se numa manhã demasiado calma
se uma canção demasiado triste
se uma música demasiado bela
não há antídoto para o excesso
se o coração ele mesmo
tem tão frágeis suas asas
23 de Março de 2009
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